Friday, July 06, 2007

The Brazilian Interactive Groove

O que o samba, o futebol e a propaganda interativa têm em comum? Sem swing, os três ficam sem graça. Talvez esse seja um dos motivos pelo qual o brasileiro se destaca mundialmente nessas três naturezas. Infelizmente, não entendo tanto de futebol quanto gostaria, de samba tenho uma pequena noção e sobre interatividade, passei os últimos 12 anos da minha vida ralando o suficiente pra me atrever a contar um pouquinho dessa história.

A fama do criativo interativo brazuca começou em 2000, ano em que a publicidade online passou a fazer efetivamente parte integral da indústria da comunicação. Desde então, o Brasil não parou de exportar talentos para todos os cantos do mundo. Muitos fatores contribuíram para isso e é claro que os festivais internacionais foram as verdadeiras alavancas. Principalmente na época em que a comunicação interativa se resumia a banners, não por opção, mas por condição e maturidade de mercado mesmo - traduzindo ao bom e velho português, prazo e investimento em internet. E é aí que começa tudo. Aqui entre nós, nessa época muita gente se recusava a fazer um anúncio de um quarto de página porque, nas palavras deles, “não dava layout”; fazer um banner de 468x60 então seria no mínimo uma brincadeira de mau gosto. Mas o desafio chamou atenção de muita gente que ainda não estava contaminada por aquela empáfia, mas por outro lado chamou a atenção dos criativos mais novos pelas possibilidades dinâmicas e interativas do meio. Assim nasceu a escola criativa mais ousada e radical da comunicação brasileira, a escola dos banners brasileiros. O menor e mais sintético formato de anúncio do mundo com todas as restrições imagináveis e que durante muitos anos foram as únicas iniciativas interativas cabíveis dentro dos prazos e investimentos do nosso mercado. Isso fez com que o criativo interativo brasileiro se tornasse um especialista em idéias simples e conceitos interativos fortes. Logo, o mundo passou a reconhecer e premiar banners “brasileiros” nos mais diversos festivais internacionais, porque como falei anteriormente ele de fato “swinga” muito mais do que a grande maioria. Cheguei até a ouvir recentemente alguns diretores de criação de outros países usarem a expressão “brazilian banner” como um adjetivo que se refere a peças simples, inteligentes e interativas. E se isso por um lado é muito bom, por outro é ruim porque virou estereótipo, e estereótipo se torna alvo fácil de crítica pela simples evidência. Vejam o que aconteceu recentemente com a Crispin and Porter, nos Estados Unidos. A Crispin é uma agência irreverente e tem em sua carteira de clientes várias marcas que estão em segunda posição dentro do seu segmento, ou seja, mais dispostas a arriscar e fazer barulho. Com isso, toda campanha irreverente e ousada naquele país passou a ser adjetivada de “Crispin Campaign” seja de lá ou não, e da Crispin mesmo não se espera outra coisa, tornando-a assim vítima do estigma criado pela própria evidência. Visitamos outro cenário agora, na Europa, os malditos sites maravilhosos da Volvo. Quem em sã consciência e um pouquinho de experiência não reconhece um site feito por aqueles caras que passam mais de 12 meses num projeto e depois pelo menos 1 mês testando? Vou usar outro estereótipo para classificá-los: sites verdadeiramente “hollywoodianos”. Huuum, e tem, claro, os japoneses, não podia deixar de citá-los. A combinação entre criação, mercado e cultura desses caras, quando comparados ao resto do mundo, resulta numa grande estranheza, que às vezes dá muito certo e às vezes parece bizarro demais para a nossa cultura.

Poderíamos escrever várias páginas sobre os diversos estilos de criação-interativa ao redor do mundo ou até mesmo as diferentes tendências dentro de pequenos países como a Suécia e Holanda, mas não seria necessário tudo isso pra dizer que agora não existe mais uma polaridade que torne um país indiscutivelmente muito melhor do que os outros em criatividade interativa. Existem sim vários mercados com condições específicas que geram diversidades criativas. Essas especialidades contribuem para que a comunicação interativa seja mais abrangente, mais completa e mais imersiva.

Enfim, toda essa movimentação criativa mundial dos últimos anos pra cá é interessante para fazer algumas reflexões. Por exemplo: qual seria o resultado da atuação de um profissional ícone europeu aqui no mercado brasileiro? Ou um americano no mercado japonês? Ou ainda um japonês na Europa? E o brasileiro com a sua escola de banners e projetos “se vira nos 30”, como se sairia em outros cantos do mundo? A verdade é que o mundo é cada vez mais “se vira nos 30” e demanda cada vez mais simplicidade e eficiência, “grooving and swinging”. Mas o melhor de tudo, e independente do que o resto do mundo pense sobre o estilo criativo brasileiro ou independente dos resultados dos festivais, a verdade é que o nosso mercado está evoluindo perceptivelmente, devagar, mas evoluindo. Impulsionado por vários fatores como investimento, resultado, mudança de comportamento do consumidor e, sobretudo por causa de gente desbravadora que está fazendo bem mais do que banner mesmo ainda se virando nos 30”.

6 comments:

paulofoerster said...

Esse jeitinho Brasilieiro, funcionou durante os ultimos 7 anos, mas sera que ainda vai funcionar? Cannes ja nao olha para nos da mesma forma de antes, seria a hora de repensar os processos?

Figueira said...

É isso aí Foerster,
Concordo contigo, mas acho que o festival não deve ser o foco mas sim a consequência de uma maturidade do mercado.

abs,
Ric

Anonymous said...

Concordo com o Foerster, mas concordo com o Ricardo também...

O engraçado é pensar nesses sites que demoram um ano e meio em produção! Isso é um pouco raro na cultura brasileira, e fico imaginando um designer brasileiro trabalhando lá fora. É um gap de modo de trabalho gigante.

Anonymous said...

Oi Ricardo.
Achei muito bom o teu texto realmente os profissionais da nossa área se tornaram experts em fazer milagres, simples mas mágicos em banners.
Mas ainda lamento que a maioria dos veículos online, sejam tão limitados e restritos a essas veiculações, são poucos os grandes portais que permitem maiores liberdades, o que cá entre nós, faz com que a maioria dessas peças sejam restritas a veicularem nos festivais.
Abraços
Rodrigo Sanvicente

Alex said...

muito bacana o texto e o blog.

Anonymous said...

Oi Rick. Texto fantástico mesmo. Tem pouca gente no mercado capaz de fazer uma reflexão como sujeito ativo e influenciador em todas essas fases, nessas linhas que você escreveu.

As vezes fico feliz por ter tido alguns "brazilian banners" que contribuíram nesse processo.

As vezes fico desapontado por ter cedido a uma pressão de mercado para ficar muito mais "more billable" do que "more creative", se é que dá para entender esse parágrafo...

Talvez agora o mercado aponte para um contexto onde a capacidade de trabalhar com essas duas vertentes passem a ser vantagem competitiva para mim: é pagar para ver o que acontece nos próximos anos.

Um abraço =)